Há muito tempo atrás – nem tanto tempo assim, pra falar a verdade, não são nem cem anos – nos primórdios dos sistemas de áudio, quando a música concreta era novidade e as antenas de transmissão e recepção de rádio idem, havia uma necessidade enorme de se criar uma reprodução sonora de qualidade.
Parte desta necessidade estava ligada à recriação da sensação de ambientação sonora. Essa qualidade do som do mundo real que a gente escuta 100% do tempo e nos dá a sensação do espaço onde o som acontece e da localização das fontes sonoras dentro dele.
Infelizmente, microfonação pura e simples cria dois inconvenientes: ou o som perde toda sua ambiência, tornando-se seco, artificial e cansativo de ouvir por ficar muito “na cara”, ou a esta mesma ambiência adiciona sujeiras e sons indesejáveis àquilo que você quer ouvir. Sabe quando é impossível ouvir alguém no celular por conta do barulho da rua? É por aí…
A solução? Tirar toda a sensação de ambientação proporcionada pelas reflexões sonoras, “secando” o som, para depois devolve-la artificialmente, juntamente com a sensação de localização no espaço das fontes sonoras

- Cordas à frente, Madeiras e Metais ao fundo. O ideal é que isso seja preservado numa gravação.
Aulinha de Física
A sensação de ambiência é dada pela reflexão dos sons nas paredes e objetos. O som bate neles e é devolvido, simples assim. Às vezes mais, às vezes menos, e numa sala muito “seca”, que absorve quase todas as reflexões, não se escuta quase nada.
Sabe por que as pessoas adoram cantar no chuveiro enquanto tomam banho? Porque, em geral, banheiros são espaços bem pequenos e cheios de superfícies que refletem bem o som. Azulejos, espelhos, torneiras de metal, a pia, etc… Então, o som demora mais para cessar e quase nenhuma frequencia é absorvida. Resultado: mais som com menos esforço.
Na prática Um sinal de audio, para emular o efeito físico da reverberação ambiental, apenas precisa ser “clonado” e atrasado em relação ao sinal original. É assim que se emula um eco.
Os primeiros efeitos de delay e reverb analógicos foram obtidos por meio de cópias múltiplas de uma gravação em fita colocadas para tocar com uma pequena defasagem, para depois serem misturadas novamente no sistema de som. Esse tipo de efeito era o chamado “Tape Reverb”, ou “Reverb de fita”, por razões óbvias.

- Provavelmente você já viu um destes em algum filme.
Muito legal pra usar em estúdio, mas não é prático e nem barato o suficiente pra uso caseiro, nem para shows. Nada que os engenheiros de som não pudessem melhorar. Eles pensaram então que, ao invés de gravar um sinal duas vezes para depois misturá-los, eles podiam simplesmente botar o sinal de audio para ser tocado e re-captado de volta, devidamente atrasados. Eles conseguiram isso fazendo vibrar placas de metal ou molas. E assim surgiam os reverbs de placa e mola, respectivamente, muito populares em amplificadores de guitarra graças ao seu baixo custo.

Olhaê o reverb de placa. Alguns orgãos Hammond tinham dentro uma unidade dessas.
E depois, lá pela década de 80, quando inventaram os sistemas de processamento digital de audio, ainda mais baratos que os sistemas de placa e mola. Os racks de reverb digital convertiam o sinal analógico em informação digital, alteravam o som por algoritmo ao gosto do freguês para armazena-lo em buffer e depois devolve-lo ao sistema com atraso. Além de mais baratos, esses sistemas são menores, mais leves e mais fáceis de transportar, o que é otimo para músicos e estúdios.

Pedal de Delay e Reverb. Nunca testei, então, não sei se é bom.
Hoje em dia, com os plugins de software de gravação e edição, dá até pra controlar, equalizar, modificar, deformar e fazer o diabo com cada repetição de som individualmente, criando os sons mais loucos possíveis.
Delay x Reverb
No fundo, no fundo, Delay e Reverb são a mesma coisa: som repetido com um atraso. A diferença entre um e outro é apenas o tempo entre um atraso e outro. A sensação de ambiência do reverb é dada por repetições rápidas em relação ao primeiro som, com um atraso curto. Já a sensação de repetição do delay é obtida por um atraso muito longo. A conta eu não sei ao certo, mas para o Reverb os atrasos são em torno de 20 milissegundos, e para o Delay, acima de 150. Se eu estiver errado, me corrijam por favor.
Como usar:
Regra de ouro número 1: vá mexendo no seu equipamento até você achar o som que você gosta
Regra de ouro número 2: leia o manual de instruções Isso posto, vamos às dicas:
- Botões básicos que qualquer sistema de delay e reverb: “Time” (tempo entre repetições), “Dry/Wet” (controla a mistura de sinal original e sinal repetido, respectivamente), “Repeats” (número de repetições). Os nomes variam de marca pra marca, mas o básico do básico é isso aí. Alguns pedais mais complexos possuem o “Pre-Delay” (atraso até a primeira repetição) e equalizadores.
- A ordem com a qual os efeitos é ligada faz diferença. Ligar a distorção antes do reverb significa que o som distorcido será repetido. Se fizer ao contrário, as repetições é que serão distorcidas. A ordem dos fatores altera o produto.
- Se for usar o delay, regule o efeito para casar a batida da música com o tempo das repetições, para evitar que estas embolem e acabem criando uma massa sonora sem ritmo definido. A não ser, claro, que a sua intenção seja exatamente essa.
- Alguns sistemas possuem um seletor de “colorido”, para emular a sonoridade dos reverbs de placa, mola e fita.
- Se for gravar, uma recomendação pessoal: grave o som seco e deixe para colocar efeitos de ambiência depois. Colocar coisas extras no seu som é facil. Difícil é tirar o que já está lá.
- A sensação de disposição espacial de um grupo se deve, em grande parte, ao uso do reverb.
- Quanto mais reverb se coloca num instrumento ou voz, mais ela soará “recuada” em relação aos demais instrumentos, como se a fonte sonora estivesse atrás de todo mundo. Quanto mais reverb, mais atrás.
Por hora, eu acho que é só isso. Se eu lembrar de mais alguma dica, eu coloco aqui depois.