Caro músico. Você que não encara esta arte apenas como hobby ou diversão e que deseja se profissionalizar. Você que um dia decidiu que valia mais a pena gastar seu tempo estudando música do que qualquer outra coisa. Você que, assim como eu, tem ótimas idéias musicais (sim, vamos mandar a modéstia pastar por enquanto) mas que não sabe muito bem o que fazer com elas. Este post é pra você.
Não, não vou dar a receita do sucesso, por dois motivos. Primeiro porque se eu a conhecesse, eu ja seria um profissional de sucesso no mercado. E segundo porque, se eu tivesse a formula mágica, não entregaria ela assim tão fãcil. >=)
O que eu tenho são alguns centavos de sabedoria que a vida me deu, de tanto eu dar minha cara a tapa e botar meu nariz aonde ele não era solicitado. Aliás, isto serve pra qualquer post deste blog. Mas hoje, dedico o post aos irmãos de labuta. Em especial, aos que estão começando a caminhada rumo à profissionalização.
Eu arrisco dizer que hoje, por um lado, está mais difícil do que nunca entrar no mercado. Por outro, digo que ele está mais acessível do que nunca.
Permita-me explicar melhor.
A relação que nós seres humanos temos com a música mudou muito de uns anos pra cá. Eu diria que mudou mais de cinco anos pra cá do que em trinta anos até esses últimos cinco anos. Tudo graças graças a uma série de tecnologias novas que já estão tão integradas ao nosso dia-a-dia que parece até que elas estiveram aí desde sempre. iPods da vida, rádios online (Blip.fm, Last.fm, etc.), sites de video (Youtube, Vimeo, etc.), sistemas de compartilhamento de arquivos via P2P (Soulseek) ou torrent (Torrentz) para troca de MP3, isto só para citar alguns poucos exemplos
A queda de faturamento das gravadoras (e sua perda de poder e influência, por tabela) é só um dos zilhões de efeitos dessas mudanças. Talvez seja o mais evidente de todos, mas tem muito mais coisa acontecendo. Quem ainda ouve álbuns inteiros? Sabe-se que a transferência P2P favorece a escuta de músicas isoladas, desvinculadas de seus álbuns conceituais. Por outro lado, os sistemas de torrent permitem que se baixe e se ouça discografias inteiras, o que seria bastante caro em outros tempos. E no meio disso tudo, temos as rádios online com seus streams de áudio e algoritmos que permitem que se ouça essas mesmas discografias e faixas isoladas sem ter que baixar nadinha.
É a ponta do iceberg, e ainda estamos nos adaptando e procurando formas de responder a essas mudanças.
Sobrou pra gente. Por hora, resta a nós músicos nos encarregarmos de funções que, tradicionalmente, eram trabalho das editoras e gravadoras: produção, distribuição, marketing, relações públicas, contratos, etc, etc, etc.
Infelizmente, não temos outra escolha senão sermos empreendedores, nem que seja num sentido mais amplo. Não é pra sair abrindo firma depois de ler este post, mas também não é pra gravar uma demo e ir de por ta em porta de gravadora esperar que um produtor ouça seu trabalho. Até porque existem grandes chances desses escritórios fecharem até lá.
Depois da reflexão, meus dois centavos de sabedoria:
- Por tudo que há de mais sagrado, faça boas gravações do seu trabalho. Não, não é nada caro e nem difícil de fazer, mas eu vou explicar com mais detalhes essa etapa da produção em outro post. O que é importante aqui é você se certificar de, em hipótese alguma, colocar uma gravação ruim na internet. Não importa se for audio, vídeo, podcast ou o que for. Trabalho porco depõe contra você, e já temos tosqueiras demais nos Youtubes da vida. Na pior das hipóteses vão achar que você não sabe o que tá fazendo, que é um músico ruim ou um sujeito sem noção. E na melhor delas as pessoas simplesmente não vão querer te ouvir, porque, adivinhe: o som está uma bosta.
- Gravou bonito? Então coloque seus arquivos pro povo ouvir, e isso você pode fazer de várias maneiras. Dá pra vender diretamente por lojas de conteúdo virtual, tipo iTunes (não sei exatamente qual é o processo, mas eu conheço músicos que já fazem isso e posso perguntar pra eles). Também dá pra colocar em servidores para download gratuito, tipo rapidshare. Tumblr também é uma otima opção, por conta da lista de followers e por permitir que se ouça música sem download, caso você prefira esta opção.
- Dependendo do seu orçamento, pague um servidor particular. Se você está só começando e/ou não tem grana, pode pular esta etapa. Mas quem já tem um trabalho gravado e já toca profissionalmente deve considerar esta opção, pra não ter que sofrer por conta de eventuais limitações e problemas de sites gratuitos. Fora que ter um domínio próprio ajuda a passar uma idéia de profissionalismo.
- Redes sociais estão aí para serem usadas. Mesmo que você tenha seu servidor próprio, aliás. Não é porque você usa uma coisa que voce vai deixar de usar a outra. É sempre bom ter opões.
- Chegue mais perto. O grande barato das interwebz é justamente aproximar pessoas. No nosso caso, as ferramentas da web (Orkut, Twitter, Facebook e o escambau) permitem que a gente converse com quem ouve nosso trabalho. É um feedback impensável a uns dez anos atrás. Além de fortalecer o vínculo com o público, essas ferramentas também são úteis na hora de filtrar informação a nosso respeito. Em especial, críticas e comentários sobre o que produzimos. Aliás, esse papo sobre crítica em tempos de internet fica pra outro post.
O cenário é meio desanimador diante da quantidade de trabalho que nos espera. Os dias de escrever uma canção e esperar por um empresário que faça todo o resto estão contados. Mas vejam pelo lado bom: não devemos mais nada a ninguém. Não precisamos mais pagar com a nossa dignidade e fazer o que o produtor fonográfico manda que a gente faça. A responsabilidade artística do nosso trabalho é totalmente nossa – coisa rara de acontecer na história da música. Até hoje.
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